Acordei neste sábado, coloquei uma música e parei pra olhar as nuvens flutando no céu "de um azul imenso" , com a sensação de um dia especial. Uma amiga muito querida mandou um corte do seu ensaio poético "A Dois", se eu pudesse descrevê-lo seria como o retrato de duas pessoas muito únicas unidas pelo sol, pelo desenho da luz.
Ali pude reconhecer também minha história, minha forma de ver e sentir. Senti vontade de escrever sobre algo que só pude concluir agora, dois anos depois.
Quem nasce para sentir, para sentir tanto, para sentir tudo, sempre alcança o sublime e também a dor.
Evoluir é aprender a lidar com isto, com a transitoriedade das belezas, do ser.
Sempre estamos sendo, nunca somos.
Mas posso falar do que fomos e do que vivemos, agora posso.
Sei que pareci indiferente, mas eu precisava ser nuvem cigana, a estrada me convidou para seguir em frente,
o vento me carregou pra ela.
Em um final da tarde tão bonito nossa história chegou ao fim, há dois anos atrás estávamos ouvindo o Clube da Esquina 1 e 2, foi quando "a vida passou pra nos carregar", aprendemos tantos mistérios, tentamos viver à margem, mas quem vive com o coração na curva de um rio tem que saber que a transitoriedade é a maior lei da vida.
Nosso amor foi poesia, foi professor de tantos ensinamentos que não teria como explicar, crescemos juntos, ficamos juntos por 8 anos, toda nossa adolescência e início da vida adulta, a formação das nossas personalidades, foi lado a lado.
Você foi meu melhor amigo, meu companheiro em tantas aventuras interiores e também o causador de tantas frustrações, sou grata a você.
Voltando ao final de tarde.
Era um dia comum, uma segunda-feira, você chegou, abri a porta.
Um vento entrou junto pela porta, desarrumando meu cabelo, olhei pro céu, respirei fundo...
de maneira tão simples o fim invade.
Entramos no meu quarto, coloquei o clube da esquina, nossos olhos cheios de palavras e água, nossa boca cheia de medo e vontade de liberdade.
A gente simplesmente sabia, não precisava explicar, a gente se conhecia de verdade.
"Sol, girassol, verde, vento solar, você ainda quer morar comigo?"
Durante esta música a gente chorou em silêncio, velando nossos sonhos, minha janela aberta, a luz amarelada,
o vento cada vez mais forte, um dor tão bonita que é se despedir para sempre.
A gente se abraçou e pela última vez bebeu junto.
De certa forma a gente sabia que até o sonho da amizade o vento carregaria.
O mundo não está pronto para pessoas que se amaram de verdade.
O mundo não aceita as transformações como nós.
E hoje eu até me esqueço que isto aconteceu, fiz dois filmes sobre isso,
o primeiro se chamou "Meu Sangue de Mangue Sujo", em super 8,
e narrou a história de uma dança que se acaba na beira de uma estrada,
da nossa estrada, a película ficou super exposta e apagou a dança,
só me deixou correndo sozinha até o meu renascimento...
a memória é uma coisa transitória, o acaso também trabalha em diferentes planos,
mas agradeço a você, que me ensinou e aprendeu comigo a sentir.
E ao te ver feliz, e ao te ver celebrando a vida, construindo um novo amor
eu só sinto paz.
Eu ainda sigo por aquela estrada dos sentidos, dançando com eles o que eles dançarem,
hoje meu coração bate sem medo.
"O que foi feito amigo, de tudo que a gente sonhou. O que foi feito da vida, o que foi feito do amor?"
Posso responder que estou cada dia mais livre (do medo, da expectativa, do condicionamento),
que tenho vivido e sentido intensamente, sozinha ou não.
Tenho ficado muito comigo, a solidão é uma boa companheira quando não se tem medo dela.
Hoje é um sábado de céu azul, de um azul imenso.
Eu senti um filme.
E te escrevi ouvindo o clube da esquina.
E daí?

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